MARCOS & MARCIA - VIAGEM À ESCÓCIA EM SET/2003

--- WILLIAM WALLACE (1270 - 1305) ---

William Wallace é o maior dos heróis escoceses, indiscutível líder da resistência escocesa durante os primeiros anos da longa, e no final bem sucedida, luta para liberar a Escócia do domínio inglês no final do século 13.

Registros da vida de Wallace são esparsos e muitas vezes inexatos. Porque antigas descrições dos seus feitos heróicos são especulativos, e também porque ele inspirou tamanho medo nas mentes dos escritores ingleses que eles o transformaram num verdadeiro demônio.

Muitas das histórias sobre Wallace remontam ao romance do fim do século 15 chamado "The Wallace", que é veementemente anti-inglês. Os contos mais populares sobre Wallace não têm evidência documental, mas eles se fixaram na imaginação popular. Wallace representou o espírito do homem comum aspirando por liberdade contra o opressor e expôs a nobreza escocesa da época como um grupo de oportunistas sem princípios. Diferentemente dos nobres escoceses coniventes que colaboraram com os ingleses em troca de favores financeiros, Wallace nunca procurou fama pessoal nem se beneficiou dela, ele não obteve nem riquezas nem terra.

Wallace nasceu por volta de 1270, provavelmente perto de Ellerslie (atual Elderslie), em Ayrshire, Escócia. Seu pai foi Sir Malcolm Wallace, pequeno proprietário de terras e pouco conhecido cavaleiro escocês. Acredita-se que sua mãe foi filha de Sir Hugh Crawford, xerife de Ayr, e acredita-se que ele teve um irmão mais velho chamado Malcolm.

Quando Wallace nasceu, Alexander III já estava no trono escocês por mais de 20 anos, seu reinado estava sendo um período de paz, estabilidade econômica e prosperidade. Ele defendeu-se com sucesso das contínuas reinvidicações de anexação inglesas. Na Inglaterra rei Edward I subiu ao trono em 1272.

Não há muita informação confiável sobre os primeiros anos de Wallace. Acredita-se que ele passou sua infância em Dunipace, próximo à Stirling, com seu tio, que era um padre. Provavelmente ele teve uma infância confortável.

Em 1286, aos 16 anos, Wallace preparava-se para cursar a vida na igreja. Naquele ano o rei Alexander III morreu, ao cair num penhasco durante uma tempestade, sem deixar herdeiros ao trono. Sua neta, Margaret, foi declarada rainha da Escócia, mas ela tinha apenas 4 anos de idade e morava na Noruega. Um governo provisório, “os guardiões”, foi estabelecido para governar o pais até que Margaret tivesse idade suficiente para assumir. Contudo, o rei inglês Edward I tirou vantagem da instabilidade da sucessão escocesa. Ele combinou com os guardiões que Margaret se casaria com seu filho e herdeiro Edward de Caernarvon (mais tarde Edward II da Inglaterra), mas a Escócia manteria sua condição de país independente.

Margaret ficou doente e inesperadamente morreu em 1290 com 8 anos de idade quando estava indo da Noruega para a Inglaterra para seu casamento. Então surgiram 13 pessoas reinvindicando o trono escocês.

Nesta época a Escócia estava praticamente ocupada pela Inglaterra e também envolvida com seus próprios conflitos internos. Os guardiões conspiravam uns contra os outros, alternando sua lealdade com o rei Edward I ou contra ele, dependendo da situação. Enquanto isso tropas inglesas operavam livremente pela Escócia. A vida civil era precária, os abusos contro o povo eram frequentes. Os guardiões pouco fizeram para manter a lei e proteger os escoceses das atrocidades inglesas.

Neste clima sem lei o pai de Wallace foi morto num conflito com tropas inglesas em 1291. É possível que a morte de seu pai nas mãos dos ingleses tenha contribuído para o desejo de Wallace lutar pela independência de seu país. Contudo, pouco é conhecido sobre sua vida neste período, com a excessão de que ele tornou-se um fora-da-lei movendo-se constantemente para evitar os ingleses e ocasionalmente confrontando-os com sua característica ferocidade.

Na ausência de um claro successor ao trono escocês, os pretendentes solicitaram o julgamento do rei inglês Edward I. Os três principais candidatos eram John de Balliol, Robert de Bruce e John de Hastings. Em 1292, Balliol foi escolhido como rei por uma comissão cuja metade dos membros foram escolhidos por Bruce e a outra metade por Balliol.

Contudo, os motivos de Edward I não eram o de ajudar os escoceses como um árbitro. Ele viu-se como um superior feudal da coroa escocesa e queria instalar um monarca escocês que ele pudesse manipular. Balliol fez um juramento de lealdade a Edward I, o qual tentou exercer seu domínio intimando Balliol a lutar contra a França (na época a Inglaterra estava em guerra contra a França). Além disso, em 1295, um tratado foi negociado entre Edward I e a França: estabeleceu-se que o filho de John de Balliol, Edward, casaria com a sobrinha do rei francês. Edward também intimou a entrega de 3 castelos escoceses. Balliol recusou e foi intimado a ir à corte em Londres, Balliol não foi e a Guerra era inevitável.

Edward I marchou para o norte com seu exército. Depois de uma campanha de 5 meses, ele conquistou a Escócia em 1297. Seguindo a sua vitória ele apontou seus próprios agentes para manter a paz na Escócia. Ele depôs e aprisionou John de Balliol e declarou-se rei da Escócia. Ele também levou a “Stone of Destiny”, a sagrada pedra da coroação escocesa, para Westminster em Londres.

Fora o sudeste da Escócia, o resto do país estava em desordem e crescia o desafio contra os ingleses. Wallace envolveu-se numa luta com soldados ingleses em Ayr. Depois de matar vários deles, ele foi preso e jogado numa masmorra e largado pra morrer de fome. Dado como morto ele foi tomado pelos aldeões, que perceberam que ele ainda estava vivo e tomaram conta dele. Ao retomar suas forças Wallace recrutou vários rebeldes e começou uma sistemática e cruel perseguição aos ingleses e a seus simpatizantes escoceses.

Cada vez com mais apoio popular, os ataques ampliaram-se. Em maio de 1297, junto com outros 30 homens, Wallace vingou-se da morte de seu pai, matando o cavaleiro responsável e seus soldados. Agora, ele não era mais um simples fora-da-lei, mas um líder militar que tinha batido um dos cavaleiros do rei Edward I, ele tornou-se o inimigo do rei.

Embora a maior parte do país estivesse em mãos escocesas em agosto de 1297, Wallace recrutou um bando de plebeus e pequenos proprietários de terra para atacar o resto das forças militares inglesas entre os rios Forth e Tay. Wallace e seu companheiro, Sir Andrew de Moray, marcharam na direção do castelo de Stirling, uma fortaleza de importância estratégica vital para os ingleses. Os comandantes ingleses devem ter se sentido falsamente confiantes de que os escoceses iriam fugir ou se render. Em 11 de setembro de 1297, o exército inglês, sob ordem de John de Warenne, Conde de Surrey, enfrentou Wallace perto de Stirling. Wallace tinha muito menos homens, mas Surrey tinha que atravessar uma ponte estreita sobre o rio Forth antes de alcançar as posições escocesas. Os homens de Wallace atraíram os ingleses a fazer um avanço impulsivo e os massacraram enquanto atravessavam o rio; os ingleses perderam quase 5,000 homens. Wallace mostrou que não era apenas um líder carismático e guerreiro, mas que também tinha habilidade tática e militar. Nunca antes disso um exército escocês havia vencido o agressor inglês. Wallace capturou o castelo de Stirling e naquele momento a Escócia estava quase livre das forças inglesas.

Na época da batalha de “Stirling Bridge”, Wallace e Moray tinham menos de 30 anos de idade e eles não eram reconhecidos pelo seus inimigos aristocratas a não ser como meros comandantes locais. Com Wallace, os escoceses pebleus e cavaleiros, em vez dos nobres, se uniram numa luta pela liberdade do tirano estrangeiro. Enquanto a nobreza escocesa usualmente cedia às demandas inglesas por fidelidade, a força patriótica de Wallace manteve-se dedicada à luta pela independência escocesa.

Em outubro de 1296, Wallace invadiu o norte da Inglaterra e destruiu os condados de Northumberland e Cumberland. Retornando para a Escócia em dezembro de 1297, ele foi proclamado cavaleiro e guardião do reino, reinando em nome de Balliol que era prisioneiro dos ingleses. Em menos de 6 anos ele saiu do anonimato para tornar-se Sir William Wallace, detentor de um dos mais poderosos postos no reino. Mesmo assim muitos nobres escoceses ainda o apoiavam de má vontade.

A empolgação após a batalha de “Stirling Bridge” durou pouco. Edward I retornou para a Inglaterra após lutar na França em março de 1298. Em 3 de julho, ele invadiu a Escócia com a intenção de massacrar Wallace e todos os que ousavam declarar a independência da Escócia. Em 22 de julho, Edward I, com seu exército de 90.000 homens, atacou um exército bem menor comandado por Wallace perto de Falkirk. Estima-se que 10.000 escoceses foram mortos nesta batalha. Embora Edward I falhasse em subjulgar completamente a Escócia antes de voltar para a Inglaterra, a reputação militar de Wallace foi arruinada. Ele fugiu para as florestas e, em dezembro, desistiu de seu título de guardião do reino, sendo sucedido por Robert de Bruce (mais tarde rei Robert I) e Sir John Comyn "the Red".

Não se sabe ao certo o que Wallace fez entre o outono de 1299 até 1303. Há alguma evidência que sugere que ele foi para a França numa missão diplomática buscando a ajuda do rei francês Philip IV.

Em 1303, o Tratado de Paris efetivamente findou as hostilidade entre Inglaterra e França e Edward I retornou seriamente à conquista da Escócia. Ele capturou Stirling em 1304, e embora a maioria dos nobres escoceses juraram fidelidade à coroa inglesa, ele continuou a perseguir o fora-da-lei Wallace.

Em 5 de agosto de 1305, Wallace foi traído por um cavaleiro escocês a serviço do rei inglês. Ele foi preso perto de Glasgow e levado para Londres onde negou-se o seu status de prisioneiro militar. Ele foi julgado por assassinato de civis e foi condenado como traidor do rei apesar de manter que ele nunca havia jurado fidelidade a Edward I.

Em 23 de agosto de 1305, ele foi executado. Naquela época (e pelos próximos 550 anos), a punição para o crime de traição era que o condenado seria arrastado ao local da execução pendurado pelo pescoço (mas não até a morte), e estripado (or drawn) enquanto ainda vivo, suas entranhas seriam queimadas na frente dos seus olhos, ele seria decapitado e seu corpo dividido em 4 partes. E este foi o destino de Wallace. Sua cabeça foi empalada numa estaca e mostrada na London Bridge, seu braço direito na ponte de Newcastle-upon-Tyne, seu braço esquerdo em Berwick, sua perna direita em Perth e a esquerda em Aberdeen.

Edward I deve ter acreditado que a execução de Wallace quebraria o espírito dos escoceses. Ele estava errado. Ao executar Wallace de forma tão bárbara, Edward I martirizou um popular líder militar escocês e incendiou a determinação de liberdade no povo escocês.

Quase que imediatamente, Robert I “the Bruce” reviveu a rebelião nacional que acabou por conquistar a independência para a Escócia e foi coroado rei escocês em 1306. No seu caminho para tentar reconquistar a Escócia, Edward I morreu perto de Carlisle, na Inglaterra.

Centenas de anos mais tarde, no século 19, estátuas comemorando Sir William Wallace foram colocadas próxima ao rio Tweed e em Lanark. Em 1869, o “National Wallace Monument” foi construído numa colina próxima à Stirling. Essa imensa torre domina a área onde os escoceses lutaram as batalhas mais decisivas contra os ingleses nos séculos 13 e 14, “Stirling Bridge” e “Bannockburn”.

Em 1995, a história de William Wallace ficou mundialmente conhecida através do filme de Mel Gibson "Braveheart".



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