MARCOS & MARCIA - VIAGEM À ESCÓCIA EM SET/2003

--- A REFORMA NA ESCÓCIA ---

O século 16 foi a época da Reforma Européia: um conflito religioso entre protestantes e católicos que dividiu a Europa Ocidental por mais de 150 anos e continua dividindo até hoje em alguns lugares.

Tudo começou em 1517 com um protesto, quando Martin Luther, um monge agostiniano alemão, pregou suas 95 teses na porta de uma igreja em Wittenberg. O que começou com as dúvidas espirituais de um monge transformou-se no movimento religioso chamado Protestantismo.

Luther retornou aos primórdios das escrituras: ao real texto da bíblia e então rejeitou todas as convenções da igreja que lá não estavam escritas. Ele interpretou a bíblia como a palavra literal de Deus. Especificamente, Luther rejeitou a autoridade do papa, uma ação que usualmente levaria o autor a ser acusado de heresia e a ser queimado. Contudo deram-lhe tempo para reconsiderar sua visão herege, o que ele fez, mas decidiu manter-se fiel às suas idéias. Felizmente, para Luther, vários príncipes alemães garantiram sua sobrevivência e financiaram a propagação das suas teorias. Rapidamente textos luteranos foram distribuídos pela Europa inflamando conflitos religiosos e incitando rebeliões por todo o mundo cristão.


A Reforma na Escócia:

Religião era importante para os escoceses no século 16. Socialmente, a igreja era crucial para a vida, era responsável pela educação, saúde, bem-estar e disciplina. A igreja era o veículo para as pessoas expressarem sua espiritualidade, e mudanças no culto colocariam em perigo as chances de salvação, ou seja, seu futuro no céu ou inferno estava em jogo. A reforma dividiu a igreja em facções católicas e protestantes, criando duas vias para a salvação, as duas reinvindicando ser a verdadeira. Então era muito importante para o povo que o estado escocês escolhesse o caminho certo.

No começo do século 16 a Escócia era uma nação fervorosamente católica, mas uma parte da população mais educada procurava formas diferentes de espiritualidade. Roma e suas doutrinas pareciam não se atualizar e não atender uma nação que rumava ao mundo moderno. A Reforma estava no ar, mas apenas uma minoria favorecia o protestantismo e a ruptura com Roma.

O rei inglês Henry VIII converteu-se ao protestantismo. O rei escocês James V precisava de dinheiro para o estilo de vida extravagante de sua corte. Com perspicácia ele flertou as idéias protestantes só para assustar o papa e conseguir dedução nos impostos. Contudo, em 1542, James V morreu. Sua única herdeira era a infante Mary, Queen of Scots. O país mergulhou numa terrível crise.

Tanto a França quanto a Inglaterra tentaram conquistar o trono escocês por intermédio de um casamento com a jovem rainha. Inglaterra tentou forçar o casamento de Mary através de repetidas invasões; a França ajudou a Escócia com armas e tropas. Em 1558, Mary of Guise, a viúva de James V, conseguiu que sua filha Mary, Queen of Scots, casasse com Francis, herdeiro da coroa francesa.

Mary foi enviada para a França e os escoceses levados aos braços de seus aliados, a França. Havia uma cláusula no contrato do casamento que efetivamente passava o controle da Escócia para a França. Os escoceses encaravam um difícil dilema. Se aceitassem as condições do casamento de Mary, eles perderiam a independência para a França, senão eles estariam adotando o mais terrível dos seus inimigos, a Inglaterra. Para os protestantes o casamento trouxe o temor de que a França patrocinasse uma inquisição para erradicar os “hereges”.

O ano de 1558 foi o ponto de maior desespero para os protestantes. Mary of Guise estava em controle e Mary Tudor retornou a Inglaterra ao catolicismo. O protestantismo escocês parecia liquidado.

Mas dentro de um ano tudo mudou. Com a ascenção da protestante Elizabeth I ao trono inglês, os reformistas renovaram a esperança. Apenas 10% da população escocesa era protestante, mas este número incluía alguns nobres importantes. Conhecidos comos os “Lords of the Congregation”, eles foram liderados por James Stewart.

Em 1559, John Knox pregou um sermão contra a idolatria em Perth o que desencadeou uma efervescente multidão de protestantes. A iconoclastia (a destruição de imagens religiosas) varreu a nação. Em St Andrews o exército dos “Lords” esvaziou os altares, destruiu ícones, relíquias e pintou de branco as paredes das igrejas. As pessoas não iriam mais se distrair da glória de Deus pelo brilho e riqueza das igrejas católicas. As abadias e catedrais, irrelevantes à nova sociedade devota, foram deixadas para cair em ruínas. Grande parte do legado artístico da renascença escocesa foi perdido para sempre.

Contudo, a mensagem não inspirou massivo suporte popular. Mary of Guise declarou os “Lords” como rebeldes. Mas Mary of Guise morreu em junho de 1560 e a Inglaterra mandou tropas para conter as tropas francesas. A maioria dos nobres apoiou a rebelião; um governo provisório foi estabelecido. O parlamento escocês renunciou à autoridade do papa e missas foram declaradas ilegais. A Escócia tornou-se oficialmente um país protestante.

Em 1561, o inesperado retorno da católica Mary, Queen of Scots, reacendeu o problema. Parecia que a Escócia teria que navegar pelas turbulentas águas da reforma ainda por mais algum tempo.

A igreja protestante que foi estabelecida, desafiando a autoridade real, encontrou-se num limbo e sob o controle de um monarca católico. Isso representava uma séria ameaça à causa protestante. Mary tolerou a igreja protestante, mas não aprovou o ato do parlamento escocês que abolia as missas. Mary continuava a assistir missas privadas em seu castelo.

Mary estava tentando acabar com a crise da Reforma, esperando trazer a igreja sob o controle real numa forma de protestantismo moderado e, por algum tempo, parecia que ela tinha conseguido. Mas as coisas complicaram para Mary. Seu segundo marido, e pai do rei James VI, Lord Darnley, foi assassinado. Mary então casou-se com um dos suspeitos do crime, James Hepburn, o conde de Bothwell – um homem com muitos inimigos no reino.

Foi aí que os nobres escoceses se levantaram contra ela, orquestrando um golpe de estado que ocorreu em 1567, quando Mary foi aprisionada e mais tarde forçada a abdicar em favor de seu filho o infante James VI. Mary ainda conseguiu fugir para o exílio na Inglaterra.

Seguiu-se 6 anos de guerra civil. A Escócia agora tinha um regime protestante, reinando sobre uma população que ainda estava longe de ser convencida.


Rei James VI 1567-1625

James VI desenvolveu suas próprias idéias sobre realeza; ele via-se como o ‘príncipe divino’, o líder legítimo da igreja protestante. Aos poucos James afirmou seu controle sobre a igreja protestante que estava rapidamente afundando numa crise.

Houve vários complôs para reestabelecer o catolicismo: na França os protestantes foram massacrados; na Inglaterra os católicos foram martirizados. O protestantismo escocês capturou o estado, mas temia ter apenas garantido conformidade e não genuína conversão.

Foi o rei James VI que garantiu o futuro do protestantismo na Escócia. Ele queria ter firme controle sobre a igreja e introduziu o Episcopado – governo da igreja por bispos apontados pelo rei. A igreja fundada por James e guiada pelos seus bispos impregnava a genuína fé protestante nas mentes da população através do catequismo e da adaptação de baladas populares em músicas protestantes.


Uma nova sociedade

Os reformistas queriam uma melhoria nas maneiras para criar uma sociedade divina. O protestantismo desejava fazer o povo vir à igreja e comportar-se propriamente. A disciplina era vista como essencial à sociedade e o instrumento usado para conseguí-la era a igreja. Cortes foram estabelecidas nas igrejas, compostas por respeitáveis membros da igreja e ministros, para agir como instrumento de controle social.

Pais tinham que reconhecer seus filhos ilegítimos, adultério era punido e promiscuidade revelada. A disciplina era severa e a vigilância real na vida diária parecia ser aceita pela população. Levou 3 gerações para conseguir, mas nos anos 1630 uma nova sociedade começou a emergir, liderada pelos ministros “divinos” e proprietários de terra que queriam uma parte na administração do país.


A união das coroas, 1603

O protestantismo e a diplomacia de James VI compensaram quando, em 1603, ele sucedeu Elizabeth I ao trono inglês. Para muitos nobres escoceses um rei escocês reinando a Inglaterra parecia ser um triunfo, mas a exaltação logo tornou-se desilusão.

Junto com o rei e a corte, que foram pra Londres, foi-se a possibilidade de títulos e cargos para a nobresa escocesa.

Com a monarquia fora do caminho, sobrou para a igreja protestante e para os nobres formar uma nova identidade escocesa.



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